Você está aqui : Inicio // Artigos // Quem precisa de um tema para o DDS?

Quem precisa de um tema para o DDS?

Quem precisa de um tema para o DDS?

Karla Maria Mikoski – Psicóloga pela PUCPR (CRP 08/09399). Consultora da Comportamento – Psicologia do Trabalho. Especialista em Gestão em Psicologia Organizacional pela FAE Business School – Curitiba, PR. E-mail: karla@comportamento.com.br
05/10/09 Quem precisa de um tema para o DDS?

Quando se trata de DDS – Diálogos Diários de Segurança no Trabalho – uma das principais questões que se observa na circulação de e-mails e fóruns de discussão nos sites voltados à segurança do trabalho é: “Alguém tem um tema para eu trabalhar no DDS?”. Com base nesta repetida dúvida dos profissionais que trabalham nesta área, nasce este artigo, com a intenção de refletir sobre onde podemos encontrar os melhores temas para se trabalhar no DDS? E também, refletir sobre as formas mais efetivas de alcançar resultados em termos de aprendizagem desta ferramenta.

É comum encontrarmos pessoas diante do computador, navegando na internet em busca de temas e textos que possam ser trabalhados nos DDS. Normalmente a qualidade do DDS está associada à qualidade do texto que foi encontrado na internet. Mas será que é só isso mesmo? Será que uma simples leitura de um texto diante de um grupo de pessoas pode ser considerado um “DDS – Diálogo diário de segurança”? A começar pelo próprio nome desta ferramenta, poderíamos deduzir que uma leitura – em que uma pessoa lê e o restante dos participantes ouve – não pode ser considerado um diálogo. Um diálogo pressupõe que no mínimo duas pessoas falem ou debatam sobre um mesmo tema/ assunto.

A escolha do tema, não é algo tão simples quanto se costuma fazer. Um dos princípios da andragogia – ciência que estuda o processo de ensino e aprendizagem de adultos – diz que os adultos só aprendem aquilo que eles têm necessidade e/ ou aquilo que terá uma aplicação prática na vida cotidiana. E o que normalmente ocorre na escolha do tema é que o instrutor ou condutor do DDS faz esta escolha baseado naquilo que ele acredita que será mais interessante ou tornará mais interessante a sua fala para o grupo. Aqui já reside uma das barreiras para que o DDS não tenha uma boa efetividade, pois o tema deve ser escolhido não com base no que o instrutor/ condutor quer transmitir, mas sim com base nas necessidades de aprendizagem dos participantes dos DDS’s.

Hoje em dia as empresas possuem inúmeras ferramentas de gestão de segurança como: inspeções, auditorias, registro de desvios, registros de quase acidentes e incidentes; que configuram uma excelente fonte de temas que podem (e precisam) ser trabalhados durante os DDS’s. Os melhores temas são aqueles que melhor se aplicam às necessidades de aprendizagem das pessoas. E estas necessidades normalmente se apresentam como dificuldades/ desvios no cotidiano.

A escolha do tema/ assunto é apenas um dos passos para a realização de um DDS de qualidade. Apesar de ser um momento que costuma ter uma curta duração, entre 5 e 15 minutos (recomendável), ele exige um mínimo de planejamento, de preparo, para que surta o resultado esperado: aprendizagem.

O planejamento do DDS precisa seguir 4 passos básicos que serão descritos a seguir:

1) Definição do público:
Talvez mais importante do que conhecer em profundidade o tema que será trabalhado no DDS, seja conhecer as características das pessoas que compõe o grupo onde irá acontecer o DDS. Um mesmo tema pode ser trabalhado de diferentes formas, dependendo das características do público presente em determinado contexto.

Por exemplo: será realizado um DDS sobre o tema de “proteção das mãos” em duas áreas distintas: o restaurante e a manutenção. No restaurante o grupo de trabalho é composto por 8 mulheres e 2 homens, que possuem uma faixa de idade entre 18 e 30 anos, a maioria possui apenas o ensino fundamental e tem um tempo de convivência médio de 6 meses, em função da rotatividade de mão de obra desta área. Já na manutenção, o grupo é formado por 23 homens, que possuem uma faixa etária entre 28 e 45 anos, todos eles possuem no mínimo ensino médio, sendo que destes, 60% tem ensino superior e apresentam uma média de convivência em grupo de 5 anos.

Nestes dois casos é possível observar distinções claras entre os públicos que demandam um cuidado especial por parte de quem irá conduzir um DDS. A diferença entre gêneros (feminino e masculino) pede que sejam utilizados exemplos que possam causar identificação destes públicos. O grau de escolaridade do grupo gera uma necessidade de ajuste na linguagem que será utilizada, inclusive incluindo gírias, jargões comuns para aquele público específico. E o tempo de convivência do grupo é outro aspecto que vai demandar do condutor do DDS, diferentes tipos de postura, pois ambos (com pouco ou muito tempo) exigem cuidados específicos.

Deixar de mapear as características do grupo de trabalho onde será realizado um DDS pode comprometer todo o trabalho, pois o condutor perde a oportunidade de criar uma identificação do público com o tema, de dar sentido ao assunto que será trabalhado. E como já foi dito, este é um dos pontos primordiais para que os adultos aprendam algo.

2) Definição do objetivo:
Como já dizia o poeta, ”para quem não sabe aonde vai, qualquer lugar serve!” A definição do objetivo do DDS é um estabelecimento de meta: onde se pretende chegar com ele? É certo que em 10 ou 15 minutos, pouco se pode fazer, mas se o objetivo de aprendizagem estiver claro, ele pode ser perfeitamente alcançável.

E como é que se estabelece um objetivo para o DDS? É simples, basta adaptar o seu tema ao seu público, respondendo a uma pergunta: “O que você espera que as pessoas sejam capazes de fazer depois de participar do seu DDS?” E para o tempo que há disponível para o DDS, uma única resposta é o suficiente para criar um objetivo de um DDS. Veja um exemplo:

Tema: proteção das mãos
Público: colaboradores do restaurante (citado no item anterior)
Pergunta para estabelecer o objetivo: O que os colaboradores do restaurante precisam ser capazes de fazer depois de participar de um DDS sobre proteção nas mãos?

Respostas possíveis:
1. Proteger as mãos na atividade de corte de carne.
2. Utilizar as luvas no manuseio de cubas quentes.
3. Higienizar as mãos antes de entrar na cozinha.
4. Utilizar luvas para lavagem das louças.
5. Manter as unhas curtas e limpas.
6. Criar hábito de passar álcool gel nas mãos sempre que entrar na cozinha.

Cada uma destas seis respostas poderia se tornar um DDS diferente, que trabalhados ao longo de uma semana alcançariam o resultado desejado. Portanto, basta um só objetivo dentro de um mesmo tema para gerar um DDS. Apesar de se tratar do mesmo tema, quanto mais específico for trabalhado no DDS, maior será a chance de obter como resultado uma mudança no comportamento das pessoas.
Portanto, sempre que identificar um tema é importante estabelecer objetivos distintos que possam ser trabalhados durante vários dias com o mesmo grupo de pessoas, dando ênfase para aquela aprendizagem.

3) Definição de métodos e técnicas:
Depois de definir o que é esperado das pessoas que participam de um DDS, é importante que o condutor se preocupe em como vai gerar o famoso “diálogo” dentro do DDS. O método mais frequentemente encontrado nos DDS é a leitura de um texto, em que uma pessoa lê algo em voz alta para os demais presentes naquele grupo. Esta é uma metodologia de baixa capacidade de retenção de aprendizado, (como será apresentado a seguir) pois coloca aquele que ouve em uma posição passiva no processo de aprendizagem. Para que exista a possibilidade do aprendizado das pessoas adultas, os participantes do processo precisam ocupar uma posição ativa dentro do processo e compartilhar a responsabilidade de ensinar e aprender com o condutor do DDS. Os adultos são pessoas dotadas de experiência e conhecimento, e estes, precisam ser valorizados e utilizados a favor do aprendizado que se pretende despertar dentro de um grupo de pessoas adultas.

E para isso, é preciso lançar mão de métodos e técnicas que favoreçam o diálogo e a participação das pessoas durante o DDS. Segundo a andragogia, os adultos apresentam capacidades distintas de retenção de aprendizado dependendo dos recursos e técnicas que são utilizados no processo de ensino. Segue uma estatística:

Adultos retém aprendizagem de:

10% daquilo que lêem
20% daquilo que ouvem
30% daquilo que vêem
50% daquilo que ouvem e vêem
70% daquilo que discutem com outros
90% daquilo que praticam

Fonte: Zezina Soares Bellan – Andragogia em Ação

Portanto, é de extrema importância escolher recursos que extrapolem a leitura e que favoreçam a discussão, a participação e a prática das pessoas durante o DDS, para proporcionar o aprendizado desejado.

4) Verificação da aprendizagem:
Por fim, é necessário pensar em como avaliar se o objetivo estabelecido foi alcançado. Existem duas possibilidades: a primeira delas, é durante o DDS, quando o condutor pode ficar atento ao nível de participação das pessoas e também a expressão corporal e facial dos participantes, avaliando se estão pertinentes, convergentes para o assunto que está sendo tratado. Muitas vezes, quando a pessoa está desestimulada ou desinteressada é possível perceber através da participação das pessoas e até mesmo pela sua postura ou expressão facial.
A outra possibilidade é verificar na prática se aquilo que foi conversado durante o DDS está sendo praticado pelas pessoas no dia a dia. E para isso as empresas também dispõem de ferramentas que podem auxiliar neste processo.

Como pode ser observado através da descrição do planejamento de um DDS, quando se espera que as pessoas aprendam algo durante a execução desta ferramenta, é necessário muito mais do que um cuidado na hora de escolher o tema. Levar em consideração aquilo que as pessoas estão precisando aprender é um exercício importante para que os próprios condutores de DDS aprendam a compartilhar a responsabilidade da segurança com os participantes. Quando a responsabilidade é só do condutor, ou seja, é só uma pessoa que lê algo na frente de várias pessoas, estas últimas ficam num papel passivo, sem nenhuma responsabilidade com aquilo que está sendo dito, e portanto, não se implicam naquela aprendizagem. É preciso dividir esta responsabilidade para gerar um aprendizado efetivo.

Construir uma cultura de segurança depende da capacidade que cada um tem de colocar em prática o cuidado ativo: eu cuido de mim, eu cuido de você e eu permito que você cuide de mim.




Artigos Relacionados

coded by nessus

2 Responses to " Quem precisa de um tema para o DDS? "

  1. Gabriel justino lopes disse:

    Gostei muito é tudo verdade.

    Obrigado;

  2. preciso de um tema para apresentar em sala de aula . talita

Leave a Reply

Copyright © 2009 SGSST. All rights reserved.
Politica de Privacidade. Powered by WordPress.